Ivailo
Era mais um dia corriqueiro da vida de Ivailo. Ele já não sabia há quanto tempo tentara se trancar dentro de casa. Não sabia há quanto tempo tentava resistir à sonolência que já lhe abatia. Era mais um dia corriqueiro na vida de Ivailo. Talvez mais que um dia, ele já não contava o tempo. Só temia. Temia dormir e acordar em meio a cadáveres destroçados. Temia ter aqueles sonhos estranhos de novo e acordar nu em plena floresta. Por isso, tentava ocupar seu tempo. Passava o tempo na antiga forja de seu pai, que fora também de seu avô, de seu bisavô e de seu tataravô. Era o que lhe restava. Comprava o material quando, depois de uma noite de sono, (sim, ele se permitia dormir algumas vezes, pois ainda era humano, ou pelo menos achava ser) ia à cidade, também comprar comida quando esquecia de caçar com as armas que fazia.
Lembrava-se que, uma vez, banhado em solidão, a caminho da cidade, encontrou um jovem chorando, sentado em um banco improvisado que fizera com um tronco caído. Tinham livros jogados por todo o chão, como se tivessem sido derrubados depressa. Ivailo não se conteve, e, por instinto, foi ter-se com o menino;
- Ei! Moleque! Por que choras?- O menino soluçou e levantou a cabeça, mostrando olheiras e marcas de que havia chorado a noite toda, falava com um sotaque carregado.
- Moço! Ajuda-me! Aqueles malditos bandidos da gangue de Guntur... Eles... – Rompeu em lágrimas outra vez.
- Qual seu nome, menino? - Perguntou Ivailo, com compaixão.
- Kenji, senhor. – Disse-lhe, entre soluços.
- Kenji, então... Que nome exótico. És estrangeiro?
- Sim, senhor.
- Por que estás sozinho?
- Meus pais foram mortos e minha casa foi saqueada, senhor. Tudo o que me restou foram esses livros.
- Que achas de ir morar comigo? Creio que posso lhe ensinar a arte da forja! – E assim foram, Ivailo e Kenji, em direção à cidade. Ivailo ainda se lembrava de sua ânsia de aprender, e de como seu olhos reluziram quando ele conseguiu forjar seu primeiro martelo. Não era um martelo de finíssima qualidade, mas era um grande trabalho para um principiante. Começava a se acostumar com Kenji e seu jeito de ser, quando, em uma manhã, acordou e não o viu em sua cama improvisada, que Ivailo fizera com palha. A casa estava com grandes falhas em todas as partes, incluindo em suas paredes e móveis. Fora investigar o resto da casa, só para descobrir uma trilha de sangue que o levava para a floresta. Além da trilha de sangue, tinham danificado várias árvores pelo caminho, marcando-as profundamente. A trilha o levava a uma grande clareira, aberta em meio a grandiosas árvores. Chutara algo macio. Quando abaixou a vista e fixou os olhos no objeto chutado, paralisou. Ali, a poucos centímetros de seu sapato tinha uma parte desfigurada do rosto de Kenji. Ainda dava para ver no único olho que restava na horripilante face um lampejo de pânico mesclado com clemência e pavor. Ivailo nunca mais dormiu tranqüilo.
Algumas vezes, ele se perguntava o que teria acontecido com sua família. Fearghas, seu pai, fora um grande exemplo para ele, sempre o aconselhando a agir de forma correta. Aprendera o ofício de ferreiro com aquele paciente e amoroso mestre e tutor, que estava sempre disposto a ensinar uma nova dica, um truque e até mesmo lhe reprimir quando necessário. Eudora, sua mãe, fora uma mulher bela, e seu pai sempre a chamava de “presente dos deuses”, pois era cuidadosa com todos os assuntos e administrava como ninguém a venda e compra de armas e materiais, sempre garantido a prosperidade da família. Tinha também seis irmãs, cujos nomes eram:Ottilia,a mais velha;Zala, a segunda; Romayne, a terceira; Ima, a quarta; Pia, em homenagem a um de seus ancestrais, que se chamava Pius, era a quinta; Davena, era a sexta e última e Ivailo era o sétimo. Todos sumiram aos poucos. Lembrava que a mais nova havia sido morta aos seus 10 anos. Os outros foram sumindo pouco a pouco, e aos 23 anos já se encontrava sozinho. Não sabia mais ao certo quantos anos tinha no momento. Passara a não contar o tempo, notava que isso só o deixava mais cansado.
Certa vez, na cidade, resolveu demorar-se em uma estalagem, pois estava com fome. Impressionou-se com seu apetite pois, após comer a ração normal que era dada na taverna (que não era nada pequena) ainda se encontrava com muita fome. Cansado e bêbado demais para voltar para casa, pediu um quarto ao dono da estalagem, que também se preparava para dormir. Percebeu que era o único hóspede do dia, e se sentiu confortável com as acomodações que lhe foram dadas, apesar da fome. Acordou na dispensa da estalagem completamente nu e rodeado de ossos e sangue, que julgava ser de três porcos que o dono da estalagem mantinha como animais de estimação, dando-lhes grãos e rações diversas. Constrangeu-se, percebendo que, de alguma maneira, havia matado e comido os três porcos, pois sua fome se encontrava saciada.
Um dia, ao caminhar pela floresta para cortar lenha, avistou uma garotinha com uma capa e uma cesta na mão, sozinha. Preocupou-se com ela. A abordou:
- Olá, minha jovem! Pra onde vais nessa floresta tão densa?
- Perdão, meu senhor. Mas fui alertada de que não poderia dar atenção a pessoas desconhecidas. Devo seguir meu caminho. – Ivailo riu-se e desejou que a menina não se perdesse na floresta, afinal já estava escurecendo. Bocejou e percebeu que sua barriga roncava, recolheu a lenha e acabou dormindo na floresta. Nunca mais viu aquela garotinha misteriosa. Só sabia que morrera em uma cabana do outro lado da floresta, junto com os restos mortais de sua avó. Disseram-lhe que faltavam diversas partes do corpo, incluindo suas pernas e boa parte do tórax. A idosa fora destroçada quase por completo. Lembrou de Kenji e passou um bom tempo deprimido, pois alguma vil criatura estava destruindo pessoas inocentes.
Pensava muito uma noite, quando olhava para o céu escuro. Não tinha sono. Algo o movia a ficar acordado. Pensava em todas as mortes horrendas que aconteceram ali. Divertia-se um pouco com isso. Parecia que gostava um pouco de sangue, e por incrível que pareça, sempre se sentia muito bem ao acordar nos dias em que alguém morria de forma brutal. Decidiu correr pela floresta, como em um impulso estranho que os pensamentos lhe causavam. Pensando que sempre acordava em locais estranhos após as mortes, notava que corria mais rápido do que o normal, enquanto, em suas quatro patas, olhava a lua cheia. Parou e uivou em sua graça, feliz e orgulhoso do monstro grandioso que se tornara.
Ivailo: Variante de Ivaylo, nome de um Imperador Búlgaro do Século XIII, possivelmente um equívoco de leitura cometido no século XV, confundindo Ivaylo com seu nome verdadeiro, que era Vulo, que é talvez derivado de uma antiga palavra do idioma Búlgaro que significava, possivelmente, lobo.
Sim, ele uivava, e conforme seus uivos tocavam a lua, a noite parecia ficar mais longa, e seus caninos mais afiados. Logo passou a caçar com seus próprios atributos físicos. Gostava de vê-los crescerem e seus músculos ficarem cada vez mais resistentes e definidos. Isso atraía as presas para sua isolada cabana. Incrível como a carne humana agora lhe parecia mais apetitosa do que tudo o que já provara.Treinava também sentir as coisas com seu faro, e a caçada ficava cada vez mais interessante com o passar das horas, ou séculos, ele sempre odiou contar o tempo. Era um predador consciente do que fazia. Um predador sem nenhuma piedade para nada ou ninguém.
Passava seu tempo entre sua coleção de ossos brilhantes, que um dia sumiram, não sabia porque. Talvez por causa da podridão. A solidão ainda lhe abatia, e com o passar dos segundos, ou dos anos, não importa; Sentia-se cada vez mais vazio, achava que era o único nessas condições e que nunca iria compartilhar sua vida com ninguém. Mas ainda tinha esperanças, ou uma fobia.
Um dia, quando caçava pelos arredores do vilarejo, ouviu um ruído vindo de um arbusto. Detrás do arbusto, o ruído tomou forma e Ivailo via duas asas. Asas castanhas, saindo de um corpo de mulher. Era a mulher mais linda que já havia visto em vida. E parecia perigosa. Talvez fosse tão bonita por representar algum perigo. Ivailo se encantava com aquele ser. Aproximava-se aos poucos, percebia que ela também lhe olhava encantada. Ambos voltaram rapidamente às suas formas humanas, e despidos, acasalaram no chão, como os animais que nunca deixariam de ser. Depois de uma eternidade de descobertas que seus instintos o guiavam a ter, experimentava o sabor dos pecados da vida mortal pela primeira vez. A pele macia contra a sua, seu calor contra a pele nua dela. O maior prazer veio com um uivo e uma espécie de gemido agudo. Encontravam-se nus, parados, deitados um sobre o outro e sem entender o que havia acontecido. O nome dela era Kai, e ela era como ele.
Um comentário:
Eu aplaudo, elogio, adoro os seus texto e AINDA SIM, você fica dando crises emos sobre "Não escrevo, eu só rabisco."... Dá vontade de te bater, sabia? u.u (Ameaça não válida, mas o que mais eu poderia falar? XD)
O texto é lindo, a intertextualidade com as histórias infantis é FODA! Os sentidos e significados por trás da história os mais MARAVILHOSOS possiveis! (l)
Simplesmente uma OBRA DE ARTE! \o/ Que bom, que você postou. ^_^
Beijos! :*
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